Repensando o trabalho
Por Davi Lago
A Bíblia apresenta preceitos sábios sobre o
trabalho e eles não podem ser ignorados. O Salmo 104, por exemplo, apresenta
alguns aspectos importantes do trabalho. O salmista faz uma narrativa poética sobre o
funcionamento do mundo falando sobre a dinâmica das estações, dos dias e das noites,
e dos animais selvagens nas florestas.
O texto afirma que Deus “fez a lua para marcar
estações; o sol sabe quando deve se pôr. Trazes trevas, e cai a noite, quando
os animais da floresta vagueiam. Os leões rugem à procura da presa, buscando de
Deus o alimento, mas ao nascer do sol eles se vão e voltam a deitar-se em suas
tocas” (Sl 104.19-22).
Na sequência, o salmista afirma a ligação
orgânica que há entre os seres humanos e o trabalho: “Então o homem sai para o
seu trabalho, para o seu labor até o entardecer” (Sl 104.23).
Ao analisarmos esses versos em contraposição com
a atual conjuntura do mundo do trabalho, podemos levantar questões pertinentes.
São questões urgentes e necessárias para pensarmos o papel do trabalho em nosso
tempo.
Trabalho: humanizador ou
desumanizador?
Percebe-se nesse Salmo que o trabalho é parte
constituinte de nossa humanidade. Assim como a lua e o sol marcam naturalmente
as estações, e assim como os animais predadores procuram instintivamente suas
presas, o ser humano sai naturalmente para o seu trabalho. Somos por natureza homo faber, seres trabalhadores, feitos
para o trabalho.
No entanto, uma grande ironia do mundo
contemporâneo é a desumanização que o trabalho causa em muitas pessoas. Como
Chaplin já denunciou em Tempos Modernos
(1936), os trabalhadores estão se tornando máquinas, seres acríticos e alienados. As paranóias do mundo
profissional tem levado muitos trabalhadores a uma aposentadoria prematura
causada pela depressão, pelo stress, pela ansiedade.
Trabalho: orientador ou
desorientador?
Ao nascer do sol os animais selvagens vão dormir,
“então o homem sai para seu trabalho”. Trabalhar envolve uma “saída”, uma saída
decidida, focada, convicta. Mesmo os que trabalham em home offices, precisam “sair” para trabalhar. Ou seja, quem
trabalha em casa precisa se desligar da vida doméstica e dedicar força e
concentração ao trabalho.
Contudo, verificamos na sociedade atual, em
diversos aspectos, que o trabalho em vez de dar um rumo tem desnorteado as
pessoas. Olhando por um prisma prático, o simples “sair para o trabalho”
tornou-se um inferno nas metrópoles devido ao trânsito intenso de automóveis.
Por outro lado, a convicção de “sair para o trabalho”, não existe para muitos
que estão à margem do mercado e sofrem com o desemprego. Por outra perspectiva
ainda, a clareza de “sair para o trabalho” não existe para muitos adolescentes
que sofrem de indecisão crônica em relação ao curso que irão fazer na
universidade.
Trabalho: libertador ou escravizador?
O Salmo diz que o homem sai para seu trabalho “até
o entardecer”. Isso mostra duas coisas. Primeiro, o trabalho deve envolver parte
expressiva do nosso tempo, mas, em segundo, ele deve ter um limite.
Novamente constata-se os abusos que são realizados
hoje. Em nossos dias é considerado normal uma pessoa perder horas de sono
trabalhando um pouco a mais. Consideramos normal e até mesmo sadio realizar uma
hora-extra. Os workaholics proliferam
incontrolavelmente.
Baseado numa perspectiva bíblica, creio que o
trabalho deve nos humanizar, orientar e libertar. Infelizmente não é isto o que
vemos hoje. Fica o apelo: precisamos
repensar o trabalho no mundo atual, e a sugestão: podemos começar repensando seu papel em nossa própria vida.
Por: Davi Lago
Em: 11.11.2011, 00:17
