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O trabalho na perspectiva cristã

Por Davi Lago

 Escuta-se comumente que, na perspectiva judaico-cristã, o trabalho é um “castigo” dado por Deus ao homem. O velho gracejo diz: “Quem inventou o trabalho não tinha nada para fazer”. Afirma-se que, segundo as Escrituras, o trabalho é uma maldição. No entanto, uma análise séria revela que essas afirmações são uma grotesca caricatura do genuíno ensino bíblico sobre o assunto.

Logo no início do Gênesis, a Bíblia afirma que “o Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2.15). Percebe-se que o trabalho é consequência da criação e não da queda do homem. Ou seja, o trabalho já existia antes de o homem pecar e ser castigado por Deus.

A pergunta que se levanta é: Quais são as razões para trabalhar na perspectiva cristã?

Podemos apontar algumas respostas:

Em primeiro lugar, através do trabalho o homem acumula riqueza e provê suas necessidades materiais. Essa é a própria definição acadêmica de trabalho como afirma o historiador Carlos Roberto de Oliveira: “trabalho é a atividade desenvolvida pelo homem, sob determinadas formas, para produzir riqueza”[1]. Deus disse para Adão: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão” (Gn 3.19); o apóstolo Paulo afirmou: “Se alguém não quiser trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10).

Em segundo lugar, através do trabalho é possível ajudar os necessitados. Além de prover suas próprias necessidades, o indivíduo que trabalha pode prover para outros. Esse é um ensino bíblico claro: “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1Tm 5.8); “O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade” (Ef 4.28).

Em terceiro lugar, através do trabalho o cristão cria pontes para a comunicação do evangelho. Paulo escreveu: “Esforcem-se para ter uma vida tranquila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os intruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém” (1Ts 4.11-12).

Em quarto lugar, através do trabalho expressamos nossa paixão por Deus. Devemos trabalhar para a glória de Deus. Quando orientou os trabalhadores, Paulo afirmou: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” (Cl 3.23). Deus é nosso chefe em última instância, e nada que fazemos.

Desse modo, percebe-se que a fé cristã não limita a razão do trabalho apenas na questão material. Na perspectiva bíblica, o trabalho vai muito além disso. O trabalho constitui parte de nossa própria humanidade e ao realizá-lo nós glorificamos a Deus.



[1] OLIVEIRA, Carlos Roberto de. História do trabalho. 5ª ed. São Paulo: Ática, 2006, p.5.


Por: Davi Lago
Em: 11.11.2011, 00:04